Antes do fogo, eram só ele e a Bia
O Gilberto é pai solo. A mãe da Bia morreu no parto, há quatro anos.
Desde então, eram os dois contra o mundo: ele trabalhando, ela crescendo, um cuidando do outro.
Um pai comum, dessas pessoas que a gente nem repara na rua.
O único que entrou no carro em chamas
Na Marginal Botafogo, um carro pegou fogo com uma mãe em choque e um bebê no banco de trás.
Muita gente parou para filmar. O Gilberto foi o único que correu para dentro das chamas.
Ele salvou a mãe. Salvou o bebê. Mas o fogo não perdoou e levou 60% da pele dele.
Agora é leito, curativo e uma fila que não anda
Hoje a vida dele é cama de hospital, curativo e espera. Ele precisa de enxerto de pele urgente.
Mas o SUS colocou o Gilberto numa fila de onze meses. A cada semana parada, uma infecção nova ameaça o corpo dele.
Ele salvou duas vidas em segundos. O sistema não consegue salvar a dele em meses.
A Bia chora porque não reconhece o pai
A Bia tem quatro anos. Toda noite ela chora aqui no hospital.
Não é porque o pai está doente. É porque ela não reconhece mais o rosto dele.
A gente faz o que pode: curativo, analgésico, um colo. Mas não devolve o pai que ela conhecia.